relação com o tempo
Quando eu era pequeno, sempre gostava de olhar as fotos de família que ficavam guardadas numa caixa.
Algumas delas sempre me chamaram a atenção de alguma forma e eu nunca havia entendido, ainda, o por que.
Uma delas me acompanha já há alguns anos, num porta-retratos, uma foto tirada em outubro de mil novecentos e oitenta e quatro (há mais de vinte anos, portanto). Eu e meu irmão em cima da árvore que havia no fundo do quintal lá de casa, lendo revistinhas do Sítio do Pica-Pau Amarelo.
Ela está no mesmo porta-retratos que outra foto nossa, esta bem mais recente, tirada em dois mil e um ou dois mil e dois, não me lembro mais, mas também em meio à natureza, sentados numas pedras em cima da Gruta Rei-do-Mato, com umas árvores ao fundo, olhando pra paisagem e pensando.
Mas este texto é pra falar de outra foto da mesma caixa que existe na casa dos meus pais. Eu sempre que a via, procurava identificar as pessoas nas fotos. Eu ainda era um bebê de colo, minha irmã bem novinha, um primo mais velho que eu era apenas um moleque, meu avô era vivo (e morreu quando eu ainda era bem novo), minha avó estava bem mais nova (e ela também morreu, mas há poucos anos), meus pais e tios e tias com cara de crianças, praticamente, com cabelos e barbas completamente diferentes, foto muito engraçada. Eu sempre ria dela de tão engraçada, de tão esquecida no tempo, de tão distante pra mim.
Fiquei alguns anos sem olhar de novo aquelas fotos. Elas continuam na casa dos meus pais e eu não moro mais com eles há três anos. Mas outro dia numa visita, resolvi dar uma olhada lá de novo, mostrar algumas fotos pra Izabela, minha namorada, rir mais um pouco de novo. Como sempre.
Revi a tal foto, a família toda, meus avós, meus pais, tios e tias, primos mais velhos, irmã, eu no colo e tal. Me deu um trem na mesma hora. Olhei pra minha sobrinha, filha da minha irmã, e ela estava igualzinha à minha irmã na foto. Calculei as idades de todos na foto. Se eu era um bebê de colo, não tinha completado ainda um ano, então aquela foto tinha vinte e seis ou vinte e sete anos de idade. Meus pais tinham então a idade que eu e meus irmãos temos hoje, assim como nossos tios e tias; meus avós tinham a idade que meus pais têm hoje, e... caralho! já passou uma geração inteira entre o momento em que aquela foto foi tirada e o momento em que eu a revi. No mesmo dia, foram à casa dos meus pais alguns dos tios que estavam na foto e eles também gostaram de vê-la. Um dos meus tios ainda notou como o filho mais velho é a cara dele, outro reforçou como minha sobrinha lembra minha irmã quando era mais nova e eu fiquei matutando aquilo, como se ninguém estivesse vendo realmente o mesmo que eu vi na foto, como foi que passou toda uma geração e como que o ciclo sempre se repete, como que a família sempre muda mas sempre continua igual.
Talvez ninguém tivesse pensado nisso por já ter visto a mesma coisa em muitas outras situações, muitas outras fotos, em muitos outros nascimentos e mortes, em muitos outros tempos. Mas foi ali, eu acho, que essa minha relação com o tempo, que eu sempre achei ser diferente da relação de outras pessoas com ele, tomou uma dimensão nova pra mim. Talvez uma dimensão mais compreensível, embora não seja necessariamente mais explicável.
Mas uma coisa é certa, desde o momento que eu descobri que serei pai - e mesmo um pouco antes disso, talvez quando eu pensei a primeira vez, seriamente, em ser pai de alguém - essa relação não me deixa, ela realmente faz parte de mim. O passado, o presente e o futuro estão todo o tempo em minha cabeça, as relações entre estes tempos, as coisas que aconteceram, as que deixaram de acontecer, como uma coisa que aconteceu ou deixou de acontecer tem relação direta com outra que acontece hoje ou que está pra acontecer num futuro breve ou distante. Mas tudo isso é assunto pra outro texto. Neste fica minha relação com o tempo e como a constatação da passagem de uma geração inteira me deixou mais intrigado com o nascimento e a morte, o passado e o futuro, meus pais e meus filhos.

1 Comments:
Engraçado, eu também tenho estado pensando sobre o tempo. Três anos aqui já longe de vocês todos... voltei pra São Gabriel terça-feira e posso dizer que nada mais é o mesmo, os anos passados passaram mesmo e o que é sempre o mesmo num instante deixa de ser novidade. Pelo menos no meu curso tenho outras preocupações, e passar um tempo no mato vai ser melhor ainda...
Com certeza em outubro eu voltando a gravidez já vai estar bem mais redonda, e vamos ver se em dezembro eu chego aí antes ou depois da Bela espocar!
Doido ser menino! Nessa época de proles pouco numerosas corre-se o risco de completar uma família só com primos ou só com primas, você pode chamar ele pelo nome do dia da semana que ele nascer, que tal? Eu acho que ia gostar de chamar Sábado... Se bem que você pode chamar ele de Sábado independente do dia que ele nascer.
Até por causa desse papo sobre o tempo...
Disse um poeta que o tempo é a única coisa que se pode escrever sobre com algum proveito. Lembra do filme O Homem que Copiava? Tem um poema lá que o operador de foto-copiadora não conseguia ler a última linha, é bem legal.
É isso.
Parabéns de montão e fui!
30 julho, 2005 14:12
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