5.500 nomes para o bebê
“Nomes indígenas, bíblicos, mitológicos, populares, inclusive nomes afros”. É assim que está escrito na capa da pequena revista vendida em muitas bancas do centro da cidade.
Não agüentando de curiosidade, comprei. Nela há os nomes, suas origens e significados. Além de uma orientação que devem ser usados “nomes fáceis e sem complicações”, e que nem todos os que aparecem ali são adequados, mas que constam na revista apenas para satisfazer a curiosidade do leitor.
Alguns exemplos retirados da revista:
nomes de estados ou cidades, como Goiás, Sergipe, Olinda, Sabará e Birigui (sim! a Massachusetts brasileira!), além de Sepetiba e Ipanema, nomes de praias - e Ipanema significa, em tupi, ‘água que não presta’, olha só que coisa;
marcas registradas como Ajax, Kuat, Melita, Minerva (eu conheço uma Minerva!) e até Mirabel (imagina alguém chamando a menina: oh gostosa!), além de uma das marcas mais conhecidas no país, Tabajara;
palavras de uso mais ou menos corriqueiro mas que nunca associei a nomes próprios como Abril (sim, o mês de Abril), Ábaco, Abstêmio, Albino (esse eu já vi como sobrenome, e, por uma grande ironia, sobrenome do cara mais longe de ser albino de todo o cefet no tempo que eu estudei lá), Alegria (vê se pode!), Nirvana e até Jardim (oh Jardim, sai do quintal meu filho!) (mas esse também é sobrenome)
e, claro, os nomes esdrúxulos (desculpe se seu nome estiver aqui, mas se estiver é por que ele é esdrúxulo) como Gerôncio (que tem origem grega/latina e significa velho, o moleque já nasce caducando; mas pelo menos vale o pensamento positivo que esperam pra ele vida longa), Roseilaine (que não tem origem em nada, é só uma “aglutinação de Rosa e Elaine”, de acordo com a revista), e um dos piores, Pavência (com origem no latim, significa amedrontado, porra! além de por um nome ridículo na filha ainda usa um com significado tão desestimulador, imbecil até...)
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E ainda tem uma coisa incrível nesta revista, tem cinco mil e quinhentos nomes (é claro que eu não conferi), alguns normais, outros estranhos e uns estúpidos, com origens em todos os cantos do mundo mas... não tem Izabela! Tem Adetokunbo, Ecocuaba, Irungu, Madzimoyo, Omotunde e Pepukayi mas não tem Izabela! Nem com s no lugar do z, nem com um l nem com dois l’s. Pelo menos no nome Isabel, de origem hebraica, admite-se variantes como Ysabel, Isabele, Isabele..., e não errei não, na revista vem Isabele escrito duas vezes mesmo, e não tem Izabela!
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Mas o melhor nome de todos os que eu já escutei na vida, não tem nessa revista e eu nunca vi nada parecido em lugar nenhum, nem em livros, nem na internet, nem em outras conversas sobre nomes cabulosos. E foi o Uirsu quem me contou, mas eu dei uma leve aumentada na história, usando uns outros nomes retirados da revista:
A mãe, cansada daquela vida de desgraça, o marido nunca fazia nada que prestava, mal trazia comida pra dentro de casa, os filhos mais velhos não faziam nada pra ajudar em casa, não gostavam de trabalhar nem de estudar, antes do casamento, o pai e os irmãos eram uns cachaceiros sem vergonha que não faziam nada pra melhorar de vida.
Quando ela ficou sabendo da nova gravidez ela pensou com seus botões que desse menino ela cuidaria diferente, iria por nele o gosto pelo estudo e pelo trabalho, e esse sim ia ser alguém importante na vida. Mas já tem que começar por um nome bom. Nada como Adalfredo, Adalemo ou Adeltrudes, seus irmão e irmã, Florisval, Eguelberto, Kinderman ou Leodomir, seus outros filhos, de jeito nenhum, o caçula tinha que ser alguém na vida e pra isso tinha que ter um nome importante.
No cartório não teve dúvidas: Qual o nome do seu filho, minha senhora? É Doutor Flávio, seu escrivão.

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